
foto: Wagner Barbosa
Trevor Murray mostra seu talento no cavaquinho durante o carnaval de Conceição da Barra
Ele fala português com sotaque carregado, mas toca choro, chorinho, samba e pagode com alma de brasileiro. Gerente de uma fábrica de cerveja artesanal, o canadense Trevor Murray, 37 anos, descobriu os diferentes ritmos musicais do Brasil quando ainda tinha vinte e poucos anos.
Hoje, ele esbanja naturalidade ao dedilhar as cordas de um cavaquinho. E foi assim, em 2001, que ele foi parar no carnaval de Conceição da Barra. Gostou tanto que voltou em 2002, 2003, 2005 e este ano.
E com tanto jeito para tocar esse instrumento básico do chorinho, a música de Trevor não podia dar outra coisa a não ser samba. E foi assim que ele caiu de para-quedas nos braços da Batucada do Para Rai.
O cavaquinho, comprado em São Paulo em 2005, ele deixou em casa. O jeito, então, foi pegar o instrumento emprestado. E o canadense não deu mole. Grudou no cavaquinho e saiu pelas ruas de Conceição da Barra, arrastando os foliões com a Batucada.
Este ano a batucada completa 25 anos, e Trevor, 12 anos de carnaval. "Gosto de ouvir MPB, mas não sou muito de ouvir samba em CD. É uma música para a gente curtir cada detalhe, ver as pessoas se mexendo ao som dos instrumentos. Tudo ao vivo. O samba no CD não é a mesma coisa, não tem a mesma energia. Mas feito ao vivo é extraordinário, espetacular", conta Trevor
A música brasileira, ele descobriu ouvindo Bossa Nova. "Depois fui ouvindo outras coisas. Hoje toco um pouco de tudo. Até forró... música para mim é diversão. Venho de uma família que muitos tocam alguma coisa. Meu pai, por exemplo, é um ótimo guitarrista. E foi assim, que aos dez anos de idade aprendi a tocar guitarra", conta Trevor.
Tocar no Brasil, em pleno carnaval e com pessoas que ele jamais havia visto, foi uma grande surpresa. Mas esse canadense é tão bom no cavaquinho que não poderia ficar de fora do bloco. A turma do Para Rai é pra lá de divertida e faz piada de tudo. "Se jogar um jato de água forte nesse canadense vai aparecer um moreninho", brinca Adail, um dos fundadores do bloco.
A paixão pela música brasileira é tão intensa que Trevor criou, em 2005, o Trio Pé de Cana. O nome, aliás bastante sugestivo, remete a um dos ingredientes básicos da caipinha: a cachaça. "Às vezes só tocamos chorinho. Mas tem apresentações que temos que tocar de tudo um pouco. Aí, vira uma festa. canadenses e brasileiros acabam se misturando e a diversão é completa".
Trevor é assim. Onde chega faz festa, apesar de parecer um pouco tímido. Nada que possa ser contornado com um bom ritmo. E quando a palavra é samba, sai da frente.
Não é só no cavaquinho que ele arrasa. De brincadeira deram um pandeiro nãs mãos dele, em plena batucada. E ele mandou muito bem. É, os batuqueiros do Para Rai têm razão: por baixo da pele clara, tem um certo brasileiro escondido.
Fonte: Gazeta Online